Convivendo com a Epilepsia

A epilepsia requer tratamento específico e constante. Entretanto, não é impedimento para levar uma vida plena.

Convivendo com a Epilepsia
POR MAGALI BALLOTI

Muitas são as diferenças entre causas e características das crises. E com a doença não é diferente. As epilepsias também são diferentes na forma como evoluem e respondem ao tratamento. Há epilepsias de fácil controle, mas existem outras que, apesar do tratamento adequado, mantém crises mais ou menos frequentes.1

O tratamento da epilepsia baseia-se no controle de crises e na adaptação da pessoa a sua nova condição. A escolha da medicação mais adequada depende de diferentes fatores: tipos de crises, a idade e o sexo da pessoa, outros problemas de saúde que possam existir, se for mulher e quiser engravidar e os possíveis efeitos secundários associados. Um único fármaco antiepilético (ainda que diferente de pessoa para pessoa) pode ser eficaz e suficiente para atingir o controle total das crises. Além disso, também contribui nesse controle a atitude responsável e disciplinada da pessoa com epilepsia, que toma a medicação antiepilética de acordo com a prescrição médica.1

Mas as pessoas com epilepsia podem levar uma vida normal? Existem restrições para quem tem a doença?

A epilepsia é uma patologia que requer tratamento específico e constante. Entretanto, essa condição não é impedimento para que a pessoa leve uma vida plena.2 Veja a seguir algumas das principais dúvidas sobre o que uma pessoa com epilepsia pode – ou não – fazer.

Quem tem epilepsia pode dirigir?

As epilepsias têm várias causas, diferentes tipos de evolução e de gravidade clínica e a permissão para a direção veicular ou a renovação da habilitação devem apoiar-se em critérios médicos e legais para uma decisão justa. Trata-se de um processo que envolve médicos peritos examinadores, consultores das autoridades de trânsito, bem como aqueles que promovem o tratamento destes pacientes.3

A princípio a epilepsia e o fato do uso de medicamentos antiepilépticos não incompatibilizarão o candidato à direção de veículos, salvo se o quadro não estiver controlado, sujeitando-o a frequentes crises com alteração de consciência. Pessoas com intervalos curtos entre as crises não devem dirigir e aquelas com longos intervalos entre suas crises podem ser consideradas capazes de dirigir com segurança.3

Para se habilitar como motorista o candidato deverá submeter-se ao exame de aptidão física e mental. A Resolução nº 425/12 do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), que estabeleceu normas regulamentadoras para o procedimento do exame, faz referência específica à epilepsia e está, do ponto de vista legal, incluída entre as condições que necessitam de uma avalição médica que pode permitir ou restringir a condução veicular.3

Para aprovação, o candidato que faz uso de medicação antiepiléptica deverá apresentar as seguintes condições: 3

  1. Um ano sem crise convulsiva. Exigir do candidato a habilitação como motorista que possui epilepsia e que demonstre estar em acompanhamento neurológico e livre de crises epilépticas no mínimo há 12 meses. O intervalo de um ano livre de convulsões é o critério ou norma mais frequente para julgar a capacidade de dirigir das pessoas com epilepsia. Períodos sem crises convulsivas superiores a 6 e 12 meses estão associados com redução significativa do risco de acidentes envolvendo pessoas com epilepsia.
  2. Parecer favorável do médico assistente.
  3. Plena aderência ao tratamento.

Esportes são permitidos?

Muito raramente, a prática de exercícios é um gatilho para a atividade convulsiva. Para a grande maioria das pessoas com epilepsia, os benefícios do exercício superam em muito os riscos.4 Nestes casos, o bom senso sempre deve ser levado em consideração.

A maioria dos esportes é segura, mesmo que as convulsões não sejam totalmente controladas. No entanto, quanto maiores e mais graves as convulsões, maior a necessidade de limitar ou modificar as atividades físicas. Lembrando de sempre consultar seu médico.4

  • Esportes aquáticos, incluindo natação, mergulho com snorkel, passeios de jet-ski, windsurf e vela, são arriscados para pessoas com epilepsia, mas com algumas precauções podem ser praticados com segurança.
    - Sempre tenha companhia para nadar ou praticar esportes aquáticos.
    - Use um colete salva-vidas de alta qualidade e devidamente ajustado.
  • Esportes de contato – futebol, basquete – geralmente são seguros para pessoas com epilepsia. As pessoas podem se preocupar com a chance de lesão na cabeça ou no corpo, o que é comum nesses esportes. O risco de choques/trombadas também se tornou um tema quente em alguns esportes de contato ultimamente. Entretanto, pessoas com epilepsia não apresentam um risco aumentado de lesão ao praticar esses esportes, quando comparado a pessoas sem epilepsia.
  • Exercício geral e recreação. A maioria das pessoas com epilepsia pode exercitar-se com segurança em uma academia, usar equipamentos de ginástica e fazer outros tipos de exercícios.
    - Evite usar uma esteira sozinho porque cair pode levar a lesões graves. É melhor correr ao ar livre ou em uma pista.
    - Ao andar de bicicleta, evite ruas movimentadas. Tente ciclovias ou ruas residenciais tranquilas. Não se esqueça do capacete!
    - Caminhar é ainda mais fácil e não custa nada. Evite ruas movimentadas e caminhe com um amigo.
    - Faça pausas frequentes e beba bastante líquido.
  • Pessoas com convulsões descontroladas devem evitar atividades perigosas, como mergulho, escalada, paraquedismo, asa delta e alpinismo. Esses esportes exigem concentração total, e qualquer episódio de perda de consciência pode levar a lesões e possível morte.

Atividades recreativas são muito importantes para o convívio social e o bem-estar pessoal. Encontrar o equilíbrio entre uma vida segura e uma vida ativa é possível! Pensar no futuro e fazer algumas mudanças é tudo o que é necessário para se manter ativo!4

Epilepsia e trabalho

As pessoas com epilepsia podem e devem trabalhar como qualquer outra pessoa. Entretanto, devem escolher uma profissão que não ponha em rico a sua integridade física (ou a de outros), particularmente se as crises não estiverem totalmente controladas.1

Segundo a Associação Brasileira de Epilepsia (ABE), existem algumas profissões consideradas de risco.2 Conheça algumas abaixo:

  • Trabalho em alturas
  • Motorista profissional
  • Berçarista/babá
  • Piloto de avião
  • Cirurgião
  • Operador de máquinas industriais com risco de ferimento ou de alta precisão que envolva riscos
  • Trabalho junto ao fogo (cozinheiro, padeiro, bombeiro etc.)
  • Guarda-vidas
  • Mergulhador

Crianças com epilepsia podem estudar?

A epilepsia não causa qualquer diminuição da capacidade intelectual e por isso não há qualquer impedimento para que as crianças com epilepsia tenham uma escolaridade normal. Contudo, em alguns casos, a epilepsia pode ser causada por uma alteração cerebral que é simultaneamente a causa para um atraso de desenvolvimento. Neste caso, as crianças receber um tipo de aprendizado adaptado a sua capacidade.1

Epilepsia e fotossensibilidade

Para cerca de 3% das pessoas com epilepsia, a exposição a luzes piscantes em determinadas intensidades ou a certos padrões visuais pode desencadear convulsões. As crises que ocorrem nos indivíduos com epilepsia fotossensível podem ser desencadeadas por estímulos luminosos de TV, jogos eletrônicos e alguns padrões geométricos acentuados, contraste da luz do sol através de folhas de árvores, e outros.3

Esta condição é conhecida como epilepsia reflexa. As epilepsias reflexas são um grupo de síndromes epilépticas em que um determinado gatilho ou estímulo provoca convulsões. Esse gatilho pode ser algo simples no ambiente ou algo mais complexo. 5

  • Gatilhos ambientais simples incluem sensações como toque, luz ou movimento. Outros gatilhos ambientais incluem sons, como sinos de igreja, um certo tipo de música ou música ou a voz de uma pessoa. Convulsões induzidas por som simples em humanos são muito raras.
  • Gatilhos complexos podem incluir atividades como ler, escrever, fazer aritmética ou até mesmo pensar em tópicos específicos.
  • As convulsões também podem ser desencadeadas por elementos, como por exemplo os padrões de uma escada rolante em movimento, escovar os dentes, tomar um banho quente.
  • Para algumas pessoas, certas frequências de piscar ou mesmo cores específicas podem provocar convulsões.
  • Os gatilhos sensoriais podem causar convulsões em segundos, enquanto os gatilhos mais complexos podem levar minutos para desencadear uma convulsão.

Quem tem epilepsia deve levar uma vida tão normal quanto possível. Pacientes bem controlados podem e devem estudar, trabalhar, praticar atividade física, casar-se, ter filhos, dirigir... Tudo é possível com o controle da doença por meio da adesão ao tratamento, e, muito importante, acompanhamento médico constante.3

Referências

1Liga portuguesa contra a epilepsia – Epilepsia e generalidades – Website acessado em abril/2022. Disponível em: Epilepsia e Generalidades - Liga Portuguesa Contra a Epilepsia

2Liga Brasileira de Epilepsia. O que é epilepsia. Website acessado em abril 2022. Disponível em: https://www.epilepsia.org.br/o-que-e

3Associação Brasileira de Epilepsia (ABE) – Dúvidas frequentes – Website acessado em abril/2022. Disponível em: https://epilepsiabrasil.org.br/duvidas-frequentes

4Epilepsy Foundation. Safety with Exercise and Sports. Website acessado em abril/2022. Disponível em: Safety with Exercise and Sports | Epilepsy Foundation

5Epilepsy Foundation – Learn -Types of Epilepsy Syndromes - Reflex Epilepsies – Website acessado em abril/2022. Disponível em: https://www.epilepsy.com/learn/types-epilepsy-syndromes/reflex-epilepsies

Important safety information

Material destinado ao público geral. Abril/2022. BRZ2232898.

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